outubro 31, 2004

A NOSSA JUSTIÇA

Desde criança me impressionou como as pessoas julgam o que é justo ou injusto: os que pertencem ao nosso grupo têm quase sempre razão.

Recordo um acidente em que um motorista atropelou um colega da mesma classe de estudo. Nem um deu razão ao motorista. E para mi era evidente que a culpa era do atropelado: o motorista tinha apitado três vezes, todos deixaram a estrada e passaram para a margem à primeira vez excepto um. Recordo de vê-lo cerca do meio da estrada quando soou a segunda vez e eu pensei que estava a gozar com a vida dele e do outro. Quando soou pela terceira vez deu um passo para a direita, precisamente para o lado em que o motorista estava a passar. Os meus colegas de classe todos condenaram o motorista e vi tal agressividade que se tivesse havido ferimento grava riscava o linchamento. Perante a unanimidade da condenação do motorista eu nem tive a coragem de falar. Todos eram de opinião que o motorista devia ultrapassar pela esquerda e não pela direita. Teria uns 13 anos mas nunca esqueci aquela justiça popular: em minha opinião todos defenderam o colega de classe contra o estranho mesmo sem terem razão.
Um estudo sociológico nos USA mostrou que os réus que se apresentavam bem vestidos com fato e gravata tinham maior possibilidade de ser absolvidos ou receber penas menores do que os pobres e mal vestidos. O estudo concluía que o julgamento é muito influenciado pelo grupo de pertença: quem veste bem faz parte da classe socio - económica do juiz e há tendência a ser tratado com benevolência.
Num programa de TV de Itália, “Forum” de 2003-11-10 vi o seguinte julgamento: Um separado com uma filha de 8 anos queria divorciar-se para entrar numa ordem religiosa em que fazem votos de pobreza e se dedicam aos pobres do terceiro mundo deixando à mulher e filha só metade dos bens, dando o resto para os pobres que vivem em piores condições económicas e morrem de fome. Tanto o público em estúdio como a juiz, (apesar de esta se mostrar muitas vezes generosa com os pobres e favorável à beneficência), deram razão à mãe: devia deixar tudo a esta e à filha.
Eu fiquei com a impressão de que mais uma vez o julgamento foi influenciado pelo grupo de pertença: aquela mãe e filha que fazem parte do nosso mundo estão em primeiro lugar do que os pobres de África que morrem de fome.
>>>Mais:
Estupidez, fantochadas e injustiças do sistema judicial tradicional http://xoomer.virgilio.it/jiimm/ljj.htm
O grande advogado e a impotência da velha justiça
http://xoomer.virgilio.it/jiimm/aaaga.htm
HACKERS BONS E MAUS, ÉTICA GLOBAL E JUSTIÇA SEM FRONTEIRAS
http://xoomer.virgilio.it/jiimm/jjh.htm

Publicado por PIRES PORTUGAL em 01:38 AM | Comentários (0)